Alguns anos atrás, tive a oportunidade de participar de uma aula com o renomado autor Richard Susskind, conhecido pela obra “The End of Lawyers?”, publicada em 2008. Naquele livro (e naquela aula), ele propunha uma transformação radical na atuação da advocacia diante do avanço tecnológico e da automação de procedimentos jurídicos.
Durante a conversa, fiz uma pergunta que me inquietava – e ainda inquieta: “O desenvolvimento de habilidades de escuta e comunicação, bem como o domínio de técnicas de mediação, serão diferenciais para o advogado do século XXI?”
A resposta dele foi objetiva: não. Com todo o respeito à sua trajetória, sigo convicta de que a resposta correta é sim – e quero dizer por quê.
Vivemos tempos em que o direito se desmaterializa, documentos são automatizados, petições geradas por IA e decisões analisadas por algoritmos. Mas o conflito continua sendo humano. Emoções, valores, histórias, contextos e vulnerabilidades ainda estão no centro da disputa – e nenhuma automação dá conta disso sozinha.
O futuro do(a) advogado(a), e de todas as demais profissões, não será apenas técnico, mas sobretudo humano. As habilidades de escuta ativa, empatia, comunicação não violenta e estratégias colaborativas de resolução de disputas – como a mediação – são o verdadeiro diferencial competitivo em um mundo cada vez mais digital e impessoal.
Atualmente, estou cursando uma formação em Inteligência Artificial e identifico inúmeras oportunidades de usar essa tecnologia para aprimorar minha atuação como advogada-mediadora. Ferramentas de IA podem automatizar tarefas operacionais, mas é o olhar humano que cria conexão, promove escuta qualificada e constrói soluções sustentáveis para os conflitos. Visualizo, por exemplo, três caminhos concretos:
1. Análise preditiva e revisão de documentos, com apoio de plataformas disponíveis no mercado, que agilizam a leitura e interpretação de contratos, possibilitando ao profissional focar na escuta ativa e nas estratégias de mediação;
2. Simulação de acordos e cenários negociais, por meio de sistemas de apoio à decisão baseados em dados – como Dispute Resolution Tools, já usadas em cortes online no Canadá e Reino Unido –, oferecendo às partes mais clareza sobre riscos e possibilidades antes de formalizar um acordo;
3. Comunicação personalizada e empática, com o uso de chatbots humanizados ou assistentes virtuais que, combinados a princípios de comunicação não violenta, podem acolher dúvidas, encaminhar partes e preparar emocionalmente o terreno para sessões mais produtivas.
Tecnologia é ferramenta. Comunicação é ponte.
Mediação é caminho. Escuta é direção.
Defendo que o(a) profissional do futuro precisa, sim, dominar plataformas e sistemas, mas, sobretudo, precisa saber conversar, escutar e construir soluções com as pessoas – e não apenas para elas.
Se queremos um mundo mais justo, acessível e pacificador, está na hora de (re)colocar a comunicação e a mediação no centro das atenções. Esse é o convite que faço – e o caminho que escolhi seguir.
Giordani Flenik

